O Nubank Engineering Meetup #12 trouxe reflexões valiosas sobre os bastidores técnicos da empresa e sobre como evoluímos nossas plataformas, sistemas e carreiras ao longo dos anos. A conversa foi conduzida por Bel Gonçalves, hoje Principal Engineer no Nubank, que compartilhou os aprendizados acumulados ao longo de quase uma década construindo tecnologia por aqui.
Mais do que uma trajetória inspiradora, o meetup foi uma oportunidade de mergulhar em temas que moldam o dia a dia da nossa engenharia, desde decisões arquiteturais fundamentais até práticas de desenvolvimento de carreira técnica em larga escala.
A transição da arquitetura: de produto único à lógica de plataforma
A arquitetura do Nubank nasceu simples, como a de muitas startups: orientada a um único produto (cartão de crédito), para um único país (Brasil). Mas à medida que a empresa se expandiu, adicionando novos serviços financeiros, entrando em outros países, lidando com regulações diversas e necessidades distintas, essa estrutura precisou ser repensada.
A resposta foi a plataformização. O desafio: construir sistemas suficientemente flexíveis para sustentar produtos diferentes, operando em diferentes países, com regras distintas e sem reescrever tudo do zero a cada expansão. Isso exigiu uma separação clara entre lógicas específicas (como regras de negócio locais) e componentes reutilizáveis (como motores de autorização, gerenciamento de cartões e contas).
A criação de serviços mais parametrizáveis permitiu acelerar o desenvolvimento, reduzir redundâncias e, ao mesmo tempo, manter a robustez necessária para operar em escala. Esse processo, no entanto, envolveu decisões difíceis — como extrair partes críticas de serviços legados em produção, reescrever trechos em novas bases e evitar o risco do overengineering, mantendo sempre um equilíbrio entre generalidade e simplicidade.
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Plataformas que sustentam a escalabilidade
Um dos exemplos mais emblemáticos desse movimento foi a criação da plataforma de cartões, que passou a abstrair as funcionalidades de débito e crédito de forma desacoplada dos produtos e dos países em que operamos. O que antes era resolvido com um único serviço como o CreditCardAccounts que como o próprio nome sugere, é um serviço específico de cartão de crédito, precisou ser reestruturado e acabou resultando em outros serviços mais flexivéis e capazes de se adaptar a diferentes realidades, como o cartão combo no Brasil e os cartões único para débito e único para crédito no México.
Outro caso crítico foi a evolução do sistema de autorização de transações (Authorizer), um dos mais sensíveis da operação. A arquitetura precisou migrar parte das responsabilidades do datacenter físico para a nuvem, mantendo latência mínima e alta disponibilidade, fatores essenciais para a comunicação com parceiros como a Mastercard. Esse projeto exigiu não apenas excelência técnica, mas também orquestração cuidadosa para evitar qualquer impacto nos clientes durante a transição.
Padronização como motor da consistência técnica
Ao longo dos anos, o Nubank adotou uma abordagem consistente para sustentar a escalabilidade da engenharia. A padronização foi um dos pilares: todos os times utilizam a linguagem Clojure, adotam microsserviços e favorecem comunicação assíncrona. Isso criou uma base comum que facilita o reuso, reduz o custo cognitivo e promove uma evolução arquitetural mais previsível.
O uso de Clojure e do banco de dados Datomic, ambos baseados no paradigma funcional, também refletiu preocupações com segurança e previsibilidade. Imutabilidade, por exemplo, não é apenas uma escolha de design — é uma necessidade para evitar consequências prejudiciais causadas por estados incorretos no sistema.
Essa consistência técnica permitiu que padrões e boas práticas fossem replicados em diferentes contextos, acelerando a integração de novos produtos e geografias.
A trilha de carreira técnica no Nubank
O crescimento técnico dentro do Nubank acompanha a expansão da arquitetura. A trilha de engenharia conta com marcos bem definidos: engineer, senior, lead, staff, senior staff, principal e, no topo, distinguished engineer. Cada nível carrega responsabilidades técnicas, mas também influência crescente sobre decisões estratégicas e direcionamento sistêmico.
Diferente de modelos que forçam migrações para cargos de gestão, o Nubank sustenta a valorização da carreira técnica em profundidade ou em abrangência. Uma pessoa engenheira pode optar por se especializar em uma tecnologia ou se tornar uma liderança técnica generalista, com atuação cross-time, como é o caso de quem lidera produtos ou plataformas com múltiplos stakeholders.
Além disso, é possível transitar entre trilhas. A experiência com liderança de pessoas, por exemplo, pode enriquecer o repertório de quem volta para a atuação técnica. Isso beneficia a empatia, a visão de negócios e as habilidades de articulação.
A engenharia como elo entre tecnologia, negócio e produto
Em um ambiente orientado por times multidisciplinares, a atuação da engenharia não se limita ao código. Engenheiras e engenheiros participam de decisões de produto, influenciam estratégias de lançamento e discutem trade-offs com outras áreas. A colaboração com times de dados, design e negócio é diária e esse modelo fortalece tanto a qualidade das soluções quanto a criatividade das pessoas envolvidas.
Dentro dessa lógica, a carreira técnica passa a exigir não apenas profundidade tecnológica, mas também capacidade de comunicação, escuta ativa e negociação.
Cultura, confiança e inclusão como fundamentos
A estrutura arquitetural do Nubank não é feita apenas de serviços e plataformas — ela é construída por pessoas. Times são a unidade central da nossa empresa, e a colaboração é a habilidade mais essencial. Por trás de cada sistema crítico, existe uma rede de confiança onde diferentes vozes, trajetórias e formas de pensar se encontram.
Construir times fortes e diversos faz parte da nossa cultura — e é por isso que isso é uma prioridade estratégica para nós. Em iniciativas como a criação do time NuCel, buscamos ativamente formar equipes com pessoas de diferentes habilidades, experiências e perspectivas, em funções como engenharia, produto, design, entre outras.
Ambientes como esse geram soluções mais completas, empáticas e relevantes para quem usa os nossos produtos.
Equilíbrio e autogestão em um cenário de alta complexidade
Com sistemas em expansão, múltiplas geografias e mais de 100 milhões de clientes, a pressão por entregas e decisões assertivas é parte do cotidiano. Para lidar com isso, o time de engenharia do Nubank aposta em processos maduros, comunicação transparente e autonomia com responsabilidade.
Planejamentos combinam visões de curto e longo prazo. As demandas de produto são sempre discutidas com as equipes técnicas, que avaliam viabilidade, propõem alternativas e ajudam a encontrar o melhor caminho possível, mesmo que isso signifique ajustar escopos ou renegociar prazos. O foco está sempre na entrega de valor com sustentabilidade técnica.
O aprendizado como norte
Se há uma constante em todos os aspectos da engenharia do Nubank, é o aprendizado contínuo. Seja ao enfrentar um grande refactor, ao construir uma plataforma nova ou ao decidir por onde seguir na carreira, a mentalidade de aprendizado está sempre presente.
Mais do que dominar uma stack ou liderar projetos complexos, crescer aqui envolve curiosidade, adaptabilidade e disposição para estar onde as coisas estão acontecendo, mesmo que isso signifique sair da zona de conforto.
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